INSERT COIN
Um grupo de alegres penicheiros tinha decidido ir acampar para a Nazaré (e dessas férias desconfio que ainda iremos ler mais aventuras neste blog).
Uma noite, resolvem beber, entre outras coisas (muitas outras coisas...), uma garrafa de medronho. O resultado não se faz esperar e passado algum tempo já cantam, riem e dançam como se não houvesse amanhã. Mas o parque de campismo é pequeno demais para conter tanta exuberância. Caminhando aos ziguezagues vão dar uma volta pelas ruas da aldeia (ups! é vila, não é?).
Decidem entrar numa sala de jogos e aí, os jovens campistas, encontram mais ou menos as mesmas propostas a que já estavam habituados em Peniche: Aero fighters, Mortal Kombat, Cadillac’s and Dinosaurs, The Punisher, The Avengers, para além de flippers e matrecos. Dois ou três ficam logo a arrochar na rua, porque a opulência etílica já lhes chegou às pernas, enquanto que os outros vão procurar o jogo que mais os atrai no meio da neblina alcoólica. Um dos moços, depois de muito olhar à sua volta (o que até foi fácil, porque para ele a própria sala já andava à roda...) descortina ao fundo num canto a sua máquina de dilecção:
G.I. Joe – Real American Hero!
Moedinha de 50 escudos na mão, sorriso nos lábios, brilhozinho nos olhos, e lá vai ele, cambaleando, em direcção ao “Insert Coin” que piscava no ecrã. A primeira grande dificuldade é enfiar a chapa na ranhura. Diz o jovem à máquina: «Épá! Pára lá quieta!».
Finalmente consegue enfiar a moeda e iniciam as hostilidades. O “G.I. Joe” segue uma lógica acessível a qualquer um: todos te querem matar e tu tens de matar todos. Aparecem gajos da direita, da esquerda, de cima, de baixo, e tu com a tua mirazinha tens de ir dando cabo deles. É preciso ter reflexos rápidos (uma coisa que seguramente faltava naquela noite aos nossos protagonistas) mas o jovem em questão compensava a escassez de destreza com o seu conhecimento profundo do jogo. Disparava, não para onde os inimigos estavam, mas para onde eles iam estar.
Não sei se este jogo tinha acabado de chegar à Nazaré, ou se simplesmente para aquelas bandas ninguém topa deste tipo de desafios, mas o que é certo é que à medida que os níveis iam sendo superados, algumas pessoas começavam a aproximar-se, curiosas de ver um gajo, que mal conseguia manter os olhos abertos, chegar até sítios que ainda ninguém tinha visto.
«Mas quantas moedas é que ele já meteu?»
«Uma! E com alguma dificuldade...»
O massacre continua e o pequeno grupo de curiosos cresce à medida que se começa a acreditar que o final do jogo já não deve estar muito longe. Desfilam no ecrã cenários completamente inéditos aos nazarenos: ele é matá-los em refinarias, estradas, selvas, etc. Ninguém pára o nosso homem! Qual “G.I. Joe”, qual carapuça! Mais parecia era o Joe Fagundes no famoso filme “Carnificina Total, parte II: o regresso da avó”.
Mas tudo o que é bom têm um fim, e foi isso mesmo que os nazarenos viram naquela noite:
o tão desejado “fim” do jogo.
Duas coisas ficaram para a história a assinalar esta façanha. As recordações de quem lá estava (e viu o domínio do homem - mesmo bêbedo - sobre a máquina) e três letrinhas escritas no primeiro lugar do high score: NUN

2 Comments:
Meninos, EU VI!!(mais ou menos...)
O texto que segue introduzia a história deste post.
Depois de o ter publicado resolvi cortar e colocá-lo só como comentário porque senão ficava um post muito comprido.
«Hoje em dia as salas de jogos já não são o que eram. Perderam sucesso, variedade e muitos, muitos clientes. E porquê? Porque actualmente qualquer puto tem em casa uma consola que súpera mil vezes em capacidade e velocidade o CPU da missão espacial Apolo 11. E isto faz com que o mercado dos jogos tenha pedido experiências sempre mais elaboradas e demoradas, onde para se chegar ao final da aventura já não basta uma moeda e uma tarde, mas sim vários meses de vício contínuo e prolongado. Mas nem sempre foi assim. Antigamente as pessoas tinham em casa ao máximo um “Spectrum” ou um “Amiga” e os jogos melhores jogavam-se nas salas de jogos. “Street Fighter” e “Golden Axe” são bons exemplos de jogos que exigiam muita habilidade e coordenação, mas pouca paciência e reflexão. Pudera: não davam para “salvar” e recomeçar noutro dia de onde tínhamos parado: cada jogo era um esforço épico, onde se repartia sempre do 1º nível (por vezes, já tão conhecido que até aborrecia) na esperança de conseguir alcançar o tão desejado “fim”, que chamava a atenção de todos os miúdos presentes na sala de jogos...
«Ia pá, aquele gajo chegou ao “fim”...»
«Já alguma vez chegaste ao “fim”?»
«Como é que é o “fim”?»
Outra pergunta da praxe que nunca faltava e que realmente separava os heróis dos comuns mortais era: «Quantas moedas é que meteste?». Se se respondia «Uma...», ouvia-se um «Épá!» de espanto e admiração. Qualquer outro valor recebia apenas um banal «Eu logo vi...».
Nos flippers a situação não era muito diferente: dominar uma máquina destas e fazê-la “estalar” durante uma tarde inteira era ainda melhor que chegar ao final de um jogo de vídeo. Principalmente se te fosses embora e deixasses marcados nove créditos para quem quisesse jogar (alguém ainda se lembra da famosa “Lethal Weapon”?).
Mas empresas desta magnitude, no fundo, não eram muito raras e por isso, apesar do estatuto de “façanhas”, é difícil escolher a ocasião adequada para narrar neste blog. Ou talvez não? Houve um episódio que decididamente ficou para a história...»
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